terça-feira, 10 de junho de 2014

As TICs e as TACs. Por Tião Rocha



Precisamos, urgentemente, separar “educação” de “escolarização”.
Educação é um fim que se realiza apenas no plural e gera, obrigatoriamente, aprendizagens! 
Escolarização é um meio, singular na vida de cada pessoa, mas um meio! 

Escola é um projeto pré-formatado, trabalha dentro de fôrmas e, infelizmente e na maioria das vezes, dentro do formol (isto é, um conteúdo cadavérico guardado dentro de uma fôrma). A escola está fechada em si mesma, “ensimesmada”, tem um conteúdo já pronto, um currículo fossilizado e pré-definido há muitos anos, que não se atualiza. Por isso o formol. Só muda-se a data de ano para ano, mas o conteúdo, o programa e as matérias são os mesmos. E, na maioria das vezes, até o jeito de ensinar dos professores é o mesmo: as mesmas fichas amareladas, as mesmas aulas, as mesmas avaliações.

Da Idade Média até nossos dias, a escola é, provavelmente, a única instituição que não mudou. A maioria ainda tem “serventes” (servos da gleba)!

Essa dita “educação” produzida nesta dita “escola” não educa, mas apenas ritualiza a ensinagem e se reproduz ano após ano. A escola de 2011 já está pronta, independentemente dos alunos que irão nela estudar.

A escola, infelizmente, não consegue cumprir nenhuma função social importante, nem de formação educacional integral ou cidadã (desejada por todos), nem de preparação para vida profissional (desejada pelo mercado), por exemplo.

Alguns anos atrás, no período da ditadura militar no Brasil, a escola era o aparelho ideológico do Estado. Hoje, ela é o aparelho ideológico do Mercado, pois atende aos interesses dele e está à sua mercê, preocupada por preparar gente como mão-de-obra para um mundo volátil, excludente, seletivo, individualista, amoral e competitivo.
Esta privatização da escola também não produz educação, mas mercantilização e torna a escolarização um meio de afirmação de sua santidade o mercado.

Para que haja educação de verdade e integral (e não apenas para produzir mão-de-obra), temos que pensar além dos muros da escola, além das necessidades imediatas do mercado e além dos processos e conteúdos pré- formatados.

As TICs (tecnologias de informação e comunicação) atuais são o melhor exemplo do determinismo e funcionalismo mercadológico da educação! Temos que pensar em outras formas de aprendizagem e não apenas em outras formas, modernas e tecnológicas, de “ensinagem”.

Não podem ser as “TICs” que determinam a aprendizagem (e o sentido da escola, por exemplo), mas as TACs (as tecnologias de aprendizagem e convivência) que dão sentido e significado para a vida humana e hoje, mais do que nunca, da sobrevivência humana num planeta agonizante.

Se quisermos pensar em educação integral, no sentido de cidadania planetária plena e sem exclusão, ela vai muito além da escola e do mercado, já que estes não conseguem, nem podem e nem devem querer dar conta da complexidade que é a Vida.

Precisamos construir mais espaços e mais tempos de aprendizagem e de humanidade, portanto, de educação como fim. Precisamos sim de mais TICs que busquem a plena realização humana e planetária e não fiquem à reboque do mercados transnacionais e/ou neoliberais, dos oligopólios, dos sistemas financeiros e das bolsas de valores.

Sonhamos e lutamos para que um dia todas as escolas sem exceção, do pré-escolar ao pós- doutorado, se construam a partir de um mesmo currículo: a Carta da Terra.
Os 16 princípios norteadores da Carta da Terra deveriam ser a base, o alicerce de sustentação de todas as Ciências, Artes, Ofícios e Tecnologias...os princípios geradores de todas as TICs e TACs!

Nossa escola deveria nos preparar para a construção de uma nação e de um mundo melhor, e não apenas de mão-de-obra barata ou especializada. Se queremos ser um país justo, com menos corrupção e mais solidário, como podemos ter uma escola que prepara pessoas só para o mundo em que “o vale tudo” é a regra e os espertos levam todas as glórias? É necessário rever tais parâmetros e paradigmas para construirmos o país ou a América Latina que queremos e necessitamos.

Se hoje temos uma escola medíocre, de segunda categoria, o país também continuará assim, um país de segunda. 

Precisamos decidir qual escola queremos ter. Acho que podemos vir a ser os campeões mundiais de educação e construir escolas tão boas e eficientes quanto as nossas seleções e equipes esportivas.

Para que isso aconteça o professor precisa ser antes de tudo um educador, um aprendiz permanente. Ele precisa aprender genuína e o mais profundamente possível os saberes, os fazeres e os quereres dos seus alunos, crianças e jovens, ajudando-os a construir e vivenciar todas as oportunidades que necessitam para se realizarem como humanos completos: livres, felizes, educados e saudáveis. 

Este deveria ser o nosso samba enredo, o resto é alegoria e adereços!
- Como usar as TICs para transformá-las em TACs para um mundo novo?
- É necessário esse exercício de ritmo, tempo e pulsação no processo de aprendizagem...tic, tac ... tic, tac.

O educador deve ser um construtor de pedagogias próprias e não um mero repetidor de “pé de páginas”. E deve ser verdadeiro. Ele não precisa ter resposta para tudo, mas precisa ser uma pessoa curiosa, instigante, que queira aprender junto, todo dia.

Mas se ele acredita que os alunos devam passar quatro, oito (ou mais) anos para aprender sempre as mesmas coisas, do mesmo jeito e para o mesmo fim, aí ele acaba criando um lugar que chato de ir, ficar e conviver.

Todas as crianças e jovens querem aprender. O que elas não querem é estudar, porque a escola transformou o estudo numa chatice!
Este é um grande desafio: a escola ideal.
E o melhor indicador desta escola: é ser aquela em que os alunos, professores e funcionários queiram ter aulas todos os dias, inclusive aos sábados, domingos e feriados.
Esta escola não existe, ainda!

- Que TICs temos que criar para que isto aconteça?
- Quaisquer que sejam as TICs, elas deveriam ser, sempre, um instrumento a serviço da nossa humanidade melhorada e do nosso planeta preservado!

Quando se constrói o novo, é preciso mudar de posição, ter outra perspectiva, aprender outros pontos de vista e agir de forma sistêmica, sair da caixa e da fôrma, pois não dá para transformar a sociedade sem sair do lugar e só com as atuais TICs.

Para um Mundo Novo, TICs novas e TACs transformadoras!

A lógica mercadológica de dividir os espaços de atuação em compartimentos estanques, (a “educação bancária“ que Paulo Freire criticava na relação ensino-aprendizagem), produziu o 1o Setor, responsabilidade do Estado, o 2o Setor, controlado pelo Mercado e o 3o Setor, onde fica a Sociedade.

Esta divisão só interessa aos acadêmicos. Do ponto de vista da eficácia, entretanto, não funciona, porque os 3 setores se acomodaram nos seus biombos e fôrmas, esquartejam as vidas e os territórios, transferem e “terceirizam” suas responsabilidades e compromissos, e as transformações sociais necessárias e urgentes não acontecem.

Temos que criar, urgentemente, o Setor 0 (Zero), que não é comandado nem pelo Estado, nem pelo Mercado, nem pela Sociedade, mas sim pela Ética.

Não é ético que, em pleno século XXI, tenhamos crianças analfabetas. Isso não é uma questão econômica ou social. É ética! Temos que atuar para o “analfabetismo zero”. E seguir este mesmo raciocínio em relação às pessoas que passam fome nesse país com tanta riqueza e pensar em “fome zero”. Não é ético que haja degradação ambiental, desmatamento, queimadas na natureza, por isso, “degradação zero”. Não podemos também aceitar a violência contra mulheres e crianças, por isso “violência zero”, e assim por diante...corrupção zero, desnutrição infantil zero.

Precisamos zerar todos esses déficits por razões éticas, por isso, temos que criar o Setor Zero. Não é questão de saber se estes déficits são de responsabilidade do Governo, Mercado ou Sociedade Civil. A responsabilidade é de todos nós, humanos!

Temos que cuidar do nosso “ethos”, de nossa morada, do sentido da nossa vida, por uma razão ética e transformar isto numa bandeira, numa plataforma, numa causa nacional e transnacional, e não tratá-las como questões setorizadas e sempre terceirizadas.

Por isso, temos que construir um sistema de ensino mais ligado nos interesses da nação que desejamos (e não a que temos).

- Qual é o país e o tipo de cidadão que queremos? Que sejam pessoas éticas! Podem ser pobres (porque pobreza não é defeito, é injustiça social), mas que sejam dignas e vivam num país sem a defasagem e o abismo da desigualdade social, da má distribuição de renda, um país mais justo e igualitário!
Creio que não precisamos nem devemos ser o primeiro do mundo em poder econômico, mas que sejamos o primeiro do mundo em alegria, felicidade, solidariedade, dignidade e em cidadania. Esse é o grande desafio.

- Queremos este país assim ou outro?
Torço para que a gente seja campeão mundial da ética, da solidariedade, da alegria, do bem-estar, porque a experiência mostra que um país mais endinheirado não é necessariamente um país nem melhor, nem mais digno.

Precisamos parar de olhar apenas pela ótica do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) e construir as políticas públicas só a partir deste viés, porque ele só mostra o lado vazio do copo ao medir aspectos de economia, saúde e educação. (E este tem sido um poderoso indicador para construção de TICs).

Precisamos aprender a olhar pelo IPDH (Indicadores de Potencial de Desenvolvimento Humano) que se vê no lado cheio do copo (E este pode vir a ser uma nova e inovadora TIC).

O IPDH de um país ou cidade é formado pelos “pontos luminosos” de seus habitantes e forma a base do capital social deste território.

O IPDH se mede pela capacidade de Acolhimento, de Convivência, de Aprendizagem e de Oportunidade (ACAO) de uma comunidade, cidade ou nação.
E para construir essa nova plataforma social temos de fazer destas novas TICs (ACAO) as estratégias para as novas TACs (SETOR ZERO).

E só assim, creio eu, podemos nos orgulhar do nosso país e de nossa América.
Tião Rocha
Idealizador e Presidente do CPCD - Brasil 2010

(Publicação Autorizada pelo Autor – Tião Rocha) https://www.facebook.com/tiaorocha01?fref=ts

Nenhum comentário:

Postar um comentário